Chainsaw Man capítulo 182 reacende memórias: Power e Aki reaparecem em cliffhanger que vira jogo

- ago, 29 2025
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- Flávio Gomes
O cliffhanger que mexeu com o fandom
Dois fantasmas queridos de uma fase dolorosa da história voltaram a encarar a série — e bastou uma página para a comunidade explodir. No capítulo 182, intitulado "Cute", Chainsaw Man fecha com um quadro que traz Power e Aki lado a lado, em um barco, cercados por neve silenciosa. É aquele tipo de imagem que não precisa de fala para bater forte: os dois de costas para Denji, como se uma porta para lembranças trancadas tivesse sido aberta de repente.
Antes do choque final, o capítulo constrói o terreno com calma. Denji e Asa estão presos em um espaço distorcido, uma realidade torta atribuída ao Demônio do Envelhecimento. Nesse limbo, os dois conversam sobre coisas básicas e difíceis: por que seguir em frente, o que ainda vale a pena, como cada um tenta sobreviver ao peso do passado. Asa agradece a Denji — não com dramalhão, mas com a honestidade de quem percebeu que ainda existe uma razão para viver. É um respiro raro para dois personagens que carregam traumas pesados.
O clima muda num estalo. No meio da conversa, Denji passa mal e vomita um demônio: o Demônio da Neve. É bizarro e, ao mesmo tempo, muito dentro da lógica da série. O efeito dominó é imediato. Com aquela presença jogada para fora do corpo, algo se rearranja no mundo — e a última página faz o resto: Power e Aki, o lago, o barco, os flocos caindo. Visualmente, é sugestivo de flashback. Dramaticamente, é um soco no estômago.
Por que a neve importa? A série há tempos trabalha com a ideia de que certos demônios, quando apagados, levam consigo o próprio conceito e as memórias ligadas a eles. É como se o mundo esquecesse que aquilo existiu. O retorno do Demônio da Neve quebra esse bloqueio, devolvendo ao cenário algo que estava lacrado. Não é só o frio voltando: são memórias que achamos que o tempo tinha enterrado. A imagem do barco, com aquela quietude cortante, só reforça a sensação de memória desbloqueada.
Para quem viveu a Parte 1, Power e Aki não são apenas coadjuvantes populares. Eles formaram com Denji uma família torta e calorosa, que ruiu do jeito mais cruel possível. Aki, disciplinado e trágico; Power, caótica e brilhante; Denji, perdido entre o instinto e o afeto. Ver os dois novamente, mesmo que numa fresta do passado, acende tudo isso. Não é nostalgia vazia. É lembrança com ferida aberta.
O capítulo 182 funciona também por contraste. Enquanto Denji e Asa tentam se entender numa realidade quebrada, o quadro final traz um passado que parecia perdido. E vale notar como a cena é construída: o barco não é só cenário. É veículo de passagem, de travessia. A neve, que já foi símbolo de jogos, inocência e ilusão, volta como sinal de que as velhas histórias ainda querem falar — mesmo que à revelia dos personagens.
Teorias pipocaram assim que a última página circulou. Muita gente apostou que uma entidade maior, com domínio sobre a morte, poderia estar por trás de um “retorno” literal. Outras leituras foram mais pé no chão: quadro de memória, lembrança ativada, uma ponte narrativa para o que vem. A verdade veio logo em seguida: no capítulo 183, Power e Aki aparecem de novo, mas em dois quadros rápidos, num flash de cemitério com Denji — curto, direto, dolorido. Sem ressurreição. Com significado.
Essa contenção é bem a cara do autor. Em vez de entregar um reencontro impossível, ele usa a memória como bisturi. Retoma um fio afetivo com precisão e volta à história principal. O efeito? O leitor sai com a garganta apertada e com a sensação de que Denji e Asa acabaram de atravessar uma porta que não se fecha fácil.
Também tem um detalhe de timing. A conversa entre Denji e Asa sobre “motivos para viver” prepara o terreno para que as memórias certas apareçam. A lembrança de Aki e Power, nesse contexto, não parece fanservice; parece consequência emocional. Denji não consegue olhar para frente sem encarar os fantasmas do que perdeu. Asa, que carrega sua própria cota de culpa e morte, enxerga ali um espelho.
E o Demônio do Envelhecimento? Como dispositivo, ele cria um espaço onde o tempo e a memória ficam maleáveis. O passado derrama dentro do presente sem pedir licença. Não é à toa que a volta da neve aconteça ali. A velhice, no horror da série, não é só rugas e fim; é acúmulo de lembranças, as boas e as que pesam. Envelhecer, para esses personagens, é lembrar — e pagar o preço de lembrar.
Memória, perda e o rumo da Parte 2
Se tem um tema que a Parte 2 vem martelando, é a disputa entre o que queremos esquecer e o que a vida insiste em devolver. Asa, com sua culpa e a presença de forças que a ultrapassam; Denji, tentando ser normal enquanto arrasta uma história que não cabe numa mochila escolar. A neve no final do 182 é um recado: conceitos apagados podem voltar, e quando voltam, trazem junto pessoas, lugares, dores. Mesmo que só por dois painéis.
O uso da neve conversa diretamente com um momento marcante da saga de Aki. Quem lembra das cenas de “guerra de bolinhas de neve” sabe que ali a série brincou com a ideia de inocência como véu para o horror. Agora, quando a neve retorna como conceito, ela puxa esse novelo. Não é coincidência que Aki surja justamente nesse cenário. É o tipo de associação visual que o autor faz sem precisar explicar.
Power, por sua vez, sempre foi a fagulha que rasga o breu. Quando ela entra em quadro, mesmo como memória, o tom muda. Ela devolve cor a um Denji que, na Parte 2, vive esmaecido, dividido entre o que quer e o que pode. A presença dela, nem que seja num flash, reativa o antigo eixo de humanidade do personagem — amizade, lealdade, afeto simples. É pouco em páginas, mas muito em impacto.
O capítulo 183 vindo na sequência e “rebaixando” a promessa para um flashback curto não tira a força do 182. Ao contrário, ajuda a entender o plano: reacender a memória, lembrar o que foi perdido e seguir. A estrutura parece clara: cada lembrança devolvida reorganiza um pouco as peças, tanto na mente de Denji e Asa quanto no mundo que eles habitam. Se a neve voltou, o que mais pode retornar? E a que custo?
Isso levanta outro ponto: quando um conceito apagado reaparece, ele não volta puro. Volta com resquícios de trauma. A neve não é só bonita — carrega a morte de Aki, a ruína da “família” improvisada, o estalo que mudou Denji. Não dá para abraçar essa lembrança sem encarar a dor que vem junto. A série sempre trabalhou assim: amor e violência do mesmo lado da lâmina.
Do lado da Asa, a conversa com Denji antes do colapso tem efeito duradouro. Ela agradece por descobrir que ainda existe algo que a faz levantar. Essa admissão abre espaço para novas escolhas, menos ditadas pelo medo. E, curiosamente, é logo depois desse reconhecimento que o passado de Denji invade o quadro. Como se a história avisasse: para seguir vivo, você precisa chamar de volta o que tentou esquecer.
Também é bom prestar atenção no desenho do suspense. O 182 não rompe a linha da Parte 2; ele costura. Em vez de um salto de tubarão, entrega um nó cego emocional. A volta de conceitos apagados é um recurso que pode ser usado de forma pontual, cada vez que a trama exigir uma janela para o passado. Não soa como atalho barato. Soa como ferramenta de linguagem — e, claro, como isca para discussão no fandom.
As teorias sobre forças maiores mexendo os pauzinhos — especialmente as que lidam com a morte e o controle do que já se foi — continuam na mesa. Mas o 183 mostra que, por ora, a aposta é memória, não necromancia. É importante manter esse freio de expectativa: o capítulo encena ideias perigosas, brinca com a possibilidade do impossível, e depois coloca os pés no chão. O risco, e também a graça, está em caminhar nessa corda bamba.
Para Denji, o efeito prático é claro: cada lembrança que volta aumenta a tensão interna entre o garoto que quer uma vida comum e o ícone sangrento que o mundo exige que ele seja. Para Asa, funciona como alavanca dramática: ver de perto a dor do outro amplia o espelho da própria dor. Os dois saem da sequência mais próximos de uma verdade incômoda — não dá para apagar passado com força de vontade. Quando muito, dá para aprender a carregar.
Visualmente, a dupla de capítulos entrega um pequeno manual de ritmo. Silêncio, diálogo íntimo, ruptura física (o vômito do demônio) e imagem simbólica como fecho. A arte segura a cena sem estourar em exposição. O barco, a água imóvel, o granulado da neve, a distância entre figuras — tudo arma a atmosfera de luto e lembrança. É cinema em quadrinhos, daquele que confia no leitor para completar os buracos.
Se a pergunta é “para onde vai a Parte 2?”, a resposta curta é: por caminhos que passam pela memória. O Demônio do Envelhecimento abriu essa porta e, a partir daqui, qualquer conceito que um dia tenha sumido pode bater à janela de novo. A altura dessa maré ainda é um mistério, mas a direção parece definida. Em termos de personagem, o ganho é imediato: Denji volta a ter motivos concretos para encarar o que evita. Asa ganha um parceiro de vulnerabilidade, alguém que sangra do mesmo jeito.
Uma última camada: quando o mundo “lembra” de algo, ele não lembra sozinho. Pessoas comuns, cenários, objetos — tudo reabsorve o conceito. Isso pode mexer com o tecido social dentro da história, mesmo que de forma sutil. A volta da neve, por exemplo, não impacta apenas Denji. Ela recoloca símbolos, cheiros, sensações em circulação. E cada elemento desses pode acionar outra memória, outro arco, outro gatilho. É uma bomba de efeito retardado no roteiro.
O fandom já entendeu o jogo e embarcou: artes, edições de painéis, paralelos com cenas antigas, fios explicando como a neve costura os momentos-chave de Aki. A expectativa por grandes ressurreições diminuiu depois do 183, mas não o interesse. Pelo contrário — quando a série prova que sabe acender memórias sem trapacear, a confiança cresce.
Por enquanto, o que dá para afirmar é simples: o cliffhanger do 182 não foi uma promessa vazia; foi um lembrete do que a série faz de melhor quando fala de perda, afeto e custo. E a aparição curta no 183 fecha o circuito com precisão cirúrgica. O passado voltou, ainda que por frestas. E, uma vez que a neve toca o chão, ela demora a derreter.