Citi corta meta da SLC Agrícola com medo de El Niño

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Quando Gabriel Barra, analista sênior do Citigroup, divulgou seu relatório na quinta-feira (11 de junho), o sinal para os investidores foi claro: preparem-se para tempestade. O banco reduziu drasticamente as expectativas para a SLC Agrícola S.A., uma das maiores produtoras de grãos do Brasil, cortando o preço-alvo das ações de R$ 19,50 para apenas R$ 15.

O motivo? Uma combinação perigosa de fatores climáticos e econômicos. A previsão de um El Niño severoBrasil, somada à inflação dos custos de produção, criou um cenário hostil para a empresa controlada pela família Logemann. No pregão da B3, o papel SLCE3 já reagiu, recuando mais de 2% logo após o anúncio.

O impacto financeiro concreto

Aqui está o detalhe que preocupa: não se trata apenas de pessimismo de curto prazo. O Citi revisou para baixo todas as principais métricas financeiras da SLC Agrícola para os exercícios de 2026 e 2027. Antes, Barra projetava uma receita líquida de R$ 9,5 bilhões para o ano corrente; agora, a estimativa caiu para R$ 9,4 bilhões. Parece pouco, mas o lucro líquido sofreu um golpe mais duro, caindo 12%, de R$ 930 milhões para R$ 820 milhões.

Para 2027, a situação se agrava ainda mais. O Ebitda ajustado, antes estimado em R$ 3 bilhões, foi recalculado para R$ 2,8 bilhões. O lucro líquido teve um corte ainda maior, saltando de uma projeção otimista de R$ 1 bilhão para cerca de R$ 730 milhões. Apesar desses cortes significativos, o banco manteve a recomendação "Neutra", o que significa que nem compra nem venda são sugeridas explicitamente neste momento de incerteza.

Por que o clima é o vilão?

Vamos entender a lógica por trás dos números. O fenômeno climático conhecido como El Niño altera drasticamente os padrões de chuva no Brasil. Segundo o relatório, espera-se um padrão "clássico": menos chuvas no Norte e Sul, e excesso de precipitação em outras regiões. Para a SLC Agrícola, isso é problemático.

Barra estima que a produtividade da safra 2026/2027 cairá 5% em relação ao ano anterior devido a essas condições adversas. É uma queda real, tangível. E o pior? Os custos estão subindo. O analista prevê que os custos por hectare aumentarão 5% na próxima safra, impulsionados pela inflação em itens essenciais como mão de obra, diesel e fertilizantes nitrogenados.

"Prevemos que a empresa será impactada pelo efeito inflacionário em custos importantes... parcialmente compensados pela desvalorização cambial no período", afirma o relatório do Citi.

A equação é simples e dolorosa: colheita menor custando mais caro para ser produzida. Isso espreme as margens de lucro, explicando a revisão negativa nas projeções de longo prazo.

O contexto global do Super El Niño

Não estamos falando de uma previsão isolada. O cenário climático global está tenso. A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA) alertou recentemente sobre a alta probabilidade de um evento extremo. Há 63% de chance de este El Niño se tornar "muito forte", potencialmente entrando para a história como um dos maiores desde 1950.

A CNN Brasil reforçou esses dados, destacando que há 100% de probabilidade de o fenômeno persistir durante o outono e invernos subsequentes. As consequências podem incluir ondas de calor intensas, secas prolongadas no Nordeste e inundações no Sul. Para o agronegócio brasileiro, que depende fundamentalmente do regime de chuvas, essa instabilidade é um risco sistêmico grave.

Há algum lado positivo?

Sim, e é importante notar. A SLC Agrícola não está indefesa. O próprio relatório do Citi reconhece que a estratégia de irrigação da empresa e sua diversificação geográfica (ter fazendas em diferentes biomas) podem amenizar parte do impacto. A irrigação permite manter a produção mesmo em períodos de seca, atuando como um seguro contra a variabilidade climática.

No entanto, esses fatores mitigadores não foram suficientes para convencer os analistas do Citi a manterem as metas anteriores. A pressão combinada de custos inflacionários e perda de produtividade natural supera, segundo eles, os benefícios operacionais atuais.

O que esperar daqui para frente?

Os próximos meses serão cruciais. Enquanto o mercado aguarda os primeiros sinais concretos da safra 2026/2027, a volatilidade deve continuar. Investidores devem monitorar de perto:

  • As atualizações mensais da NOAA sobre a intensidade do El Niño;
  • Os relatórios trimestrais da SLC Agrícola, focando nos custos efetivos por hectare;
  • O comportamento do dólar, que pode ajudar a compensar parte da inflação local em insumos importados.

O caso da SLC Agrícola ilustra bem como o agronegócio moderno, apesar de toda tecnologia, permanece refém das intempéries. Quando o céu muda, os números mudam junto.

Perguntas Frequentes

Qual é o novo preço-alvo para as ações da SLC Agrícola?

O Citigroup reduziu o preço-alvo de R$ 19,50 para R$ 15,00 até o final do ano. Essa mudança reflete a expectativa de menores lucros devido ao El Niño e ao aumento dos custos de produção.

Como o El Niño afeta especificamente a SLC Agrícola?

O fenômeno deve reduzir a produtividade da safra 2026/2027 em aproximadamente 5%. O padrão clássico de chuvas reduzidas no Norte e Sul prejudica as áreas de atuação da empresa, exigindo maior uso de irrigação.

Quais são os principais custos que estão aumentando?

O relatório destaca a inflação em mão de obra, preços do diesel e fertilizantes nitrogenados. Juntos, esses fatores devem elevar os custos por hectare em 5% na próxima safra, pressionando as margens de lucro.

A recomendação de investimento mudou?

Não. Apesar do corte no preço-alvo e nas estimativas de lucro, o Citi manteve a classificação "Neutra" para as ações da SLC Agrícola, indicando cautela sem recomendar venda imediata.

Qual a probabilidade de um "Super El Niño"?

Segundo a NOAA, há 63% de chance de o evento se tornar "muito forte" ou "Super El Niño". Há certeza (100%) de que o fenômeno persistirá durante o outono, com alto risco de extensão para o inverno.